Curso: O Desenvolvimento Infantil, O Raciocínio Clinico e as Modalidades de Cuidado na Clínica Gestática com Crianças

Estou muito contente com a oportunidade de oferecer, mais uma vez, um curso de expansão cultural no Instituto Sedes Sapientiae!!

Pretendo, com este curso, compartilhar o que venho estudando no meu doutorado: os cuidados que podem ajudar as crianças no seu desenvolvimento e na psicoterapia.

Quem tiver interesse, as inscrições já estão abertas no link abaixo!!

http://www.sedes.org.br/site/cursos/expansao-cultural/7736

Dicas para desenvolver o autocontrole da criança

Ajudar o filho a desenvolver o autocontrole é algo bastante desafiador para os pais. Principalmente, porque o significado que cada pessoa atribui para essa habilidade costuma variar bastante. Muitas pessoas acreditam que o autocontrole está ligado à capacidade de não se afetar ou de não expressar suas emoções no dia a dia. Porém, essa forma de lidar com as próprias emoções pode levar a uma falta de autoconhecimento e, a longo prazo, a uma sensação de vazio diante das atividades que se realiza. O processo de desenvolvimento do autocontrole, por sua vez, é mais longo e delicado. A criança precisa, primeiro aprender a identificar e nomear suas emoções, para que, aos poucos, possa começar a aprender de que forma ela pode exercer algum tipo de controle sobre o que sente. Para isso, descrevi alguns cuidados que podem ajudar a criança nesse processo:

Quando a criança estiver chorando, agitada ou expressando algum tipo de desconforto ajude-a a dar um nome para o que ela está sentindo.

O desenvolvimento do autocontrole é um processo que tem início com o autoconhecimento. Para ajudar a criança no início dessa caminhada, talvez, o cuidado mais importante seja ajudá-la a nomear o que ela está sentindo.  Isso porque quem consegue identificar o que sente tende a ter mais facilidade para assumir o controle das suas emoções ao invés de agir de forma automática. Para isso, nos momentos em que a criança estiver chorando, experimente perguntar a ela: o que você está sentindo? É possível que ela consiga responder por conta própria, mas é provável que nas primeiras tentativas ela precise da ajuda dos pais para dar um nome para o que está lhe causando um desconforto emocional. Para ajudá-la, quando os pais testemunharam a situação que fez com que seu filho começasse a chorar, como o fato de um amigo ter tirado o brinquedo da mão dele, por exemplo; eles podem dizer algo como: parece que você ficou com raiva ou triste com o que seu amigo fez. Me conta se é isso mesmo que você está sentindo…

Ofereça alternativas para a criança de como agir para assumir o controle das suas emoções e não reagir a esse sentimento de forma automática.

Nessas conversas também é possível começar a ajudar a criança a se controlar diante da emoção que ela expressa. No exemplo da raiva, quando a criança percebeu o que estava sentindo, os pais podem pedir para dar uma volta com ela e sugerir algumas ações que costumam fazer quando sentem raiva para se acalmar, como por exemplo, dar alguns gritos quando não tiver ninguém por perto ou bater em uma almofada. É possível que ao nomear e ajudar a criança a buscar um alívio para a emoção que lhe trouxe desconforto, ela volte a usufruir da sensação de bem estar e possa retomar a brincadeira com o amigo. Nesse processo, é importante notar que a criança não precisou abafar o que estava sentindo, tampouco agiu de forma agressiva com o amigo, o que poderia provocar ressentimento e desgastar essa relação.

É importante lembrar que a frustração também é uma emoção que a criança precisa de ajuda para aprender a lidar e a se controlar quando se sente dessa forma.

A tolerância às frustrações que a criança enfrenta ao longo da vida também está relacionada com a sua capacidade de autocontrole diante do contato com essa emoção. Por isso, é importante ajudá-la a lidar com a frustração ao invés de esperar que ela possa ser indiferente a este sentimento ou que venha a aprender a se controlar por conta própria.

Muitas vezes, quando se diz que as crianças precisam aprender a tolerar a frustração, os pais podem ficar com a impressão de que deixar a criança chorando quando não tem seu desejo atendido é um cuidado que tem essa intenção. Porém, nesses casos, a criança não está aprendendo a identificar o que está sentindo e nem formas de como agir para voltar a se sentir bem diante desse incômodo, que são as habilidades essenciais do autocontrole. Assim, é possível impor limites e dizer que não vai comprar o brinquedo que a criança viu na vitrine de uma loja durante um passeio no shopping e ao mesmo tempo ajudá-la a lidar com a frustração que o “não” lhe provocou, por exemplo. Nesse caso, os pais podem, assim como no exemplo da raiva, dar uma volta com a criança, pedir para que ela respire fundo, para que possa ouvir o que eles têm a dizer e comentar: eu entendo o que você está sentindo, você está frustrada. Essa é uma forma de ajudar a criança a dar um nome para o seu mal estar e sair da confusão emocional na qual se encontra, sem precisar atender o seu desejo. A partir dai, com a criança mais calma, é possível oferecer referências de como agir para superar o mal estar provocado pela frustração.

Alguns pais estabelecem regras e combinados, como definir que vão dar presentes em determinadas datas especiais. Enquanto outros ajudam a criança a desviar sua atenção, propondo outra atividade prazerosa como ir tomar sorvete. Essas referências são bastante pessoais e geralmente funcionam quando os pais se inspiram na forma como eles próprios agem quando se sentem frustrados. Ou seja, quando conseguem ter empatia e se colocar no lugar da criança. Dessa forma, a criança assimila habilidades para lidar com a frustração. Assim, ao invés de se paralisar no contato com essa emoção, ela pode superar o mal estar que experimentou e persistir na busca pelos seus objetivos no dia a dia, o que, com o tempo, também ajudará no fortalecimento da sua autoconfiança.

Os pais podem tomar banho junto com os filhos? Até que idade?

No dia a dia com os filhos são tantas as decisões que os pais precisam tomar, que, muitas vezes, a insegurança bate nas situações mais corriqueiras, como, por exemplo, na hora do banho! Pensando nisso, escrevi esse post com a intenção de oferecer algumas referências sobre uma dúvida que parece ser bastante comum entre os pais: É possível tomar banho junto com o filho sem que isso represente uma experiência de constrangimento ou de excesso de intimidade tanto para os pais quanto para a criança?
Muitas vezes, até que o filho cresça o suficiente para que consiga fica em pé, os pais costumam dar banho na banheira. A fragilidade do corpo da criança leva os pais a se manterem atentos, concentrados e a tocarem no corpo do filho com bastante delicadeza. Porém, com o tempo, os pais vão ganhando mais confiança na sua capacidade de cuidar do filho e também a criança vai crescendo e desenvolvendo um corpo mais firme. Aos poucos, então, alguns pais, quando percebem que a criança pode tomar banho no chuveiro, optam pela praticidade de tomar banho junto com o filho. Esse hábito é compreensível, uma vez que costuma ser mais fácil dar banho na criança quando se está junto com ela no chuveiro. Além disso, esses momentos podem proporcionar interações divertidas e afetivas tanto para os pais quanto para a criança!
Nesse período, portanto, tomar banho junto com o filho costuma ser um momento tranquilo e divertido. Tanto para os pais quanto para as mães e independente do sexo da criança, já que até por volta dos 3, 4 anos de idade, as diferenças anatômicas não despertam tanto a atenção da criança. Porém, por volta dessa idade, é esperado que elas comecem a notar as diferenças entre o próprio corpo e o corpo do adulto. Além das diferenças entre o corpo do homem e da mulher e, desse modo, de maneira espontânea, começam a perguntar sobre as diferenças que observam. Essa fase costuma tornar consciente para os próprios pais a naturalidade com que conseguem ou não tratar de temas relacionados à sexualidade. E, além disso, a curiosidade que a criança expressa, muitas vezes, faz com que os pais comecem a se questionar se deveriam continuar tomando banho junto com seus filhos.
Essa decisão é muito influenciada pelos valores de cada família. De qualquer maneira, é importante nessa fase prestar atenção tanto nas próprias emoções quanto nas emoções da criança. Se as perguntas, os olhares da criança, ou se a experiência do banho e o contato com a nudez dos pais começam a despertar uma sensação de constrangimento, é possível que essa sensação revele que o limite da privacidade necessária entre as pessoas da mesma família esteja sendo ultrapassado. E, nessa situação, tanto a criança quanto os pais podem se sentir expostos e o constrangimento passa a se destacar nessa interação.
É importante explicar que a privacidade da criança precisa ser respeitada e esse cuidado acontece não só nos momentos do banho, mas em outras situações do dia a dia. Por exemplo, a criança pode se sentir invadida quando alguém tenta fazer por ela o que ela já é capaz de fazer por conta própria, como se limpar no banheiro sozinha. O cuidado com a privacidade da criança acontece também quando os pais se mantêm atentos e não expõem atitudes e confidencias das crianças para outras pessoas, o que evita que ela se sinta exposta de maneira recorrente. A repetição de experiências de exposição pode levar a criança a se sentir frequentemente constrangida e com o tempo, a vergonha pode se generalizar para as outras relações. Por isso, o cuidado em evitar as experiências de constrangimento e vergonha são tão importantes!
Então, se manter atento ao possível constrangimento, que a experiência de tomar banho junto pode causar na criança a partir dos 4,5 anos de idade é um cuidado com a privacidade da criança que pode ajudar a evitar que a vergonha se torne recorrente nas suas experiências.  E, se os pais e os filhos sentirem falta da diversão que compartilhavam nesses momentos, é importante ter em mente que o crescimento da criança leva a uma necessidade de atualização constante na relação e inclusive na maneira de se divertir e de expressar afeto! Se nos primeiros anos de vida, o afeto é essencialmente expresso pelos cuidados físicos, como o banho. Com o tempo, o contato físico permanece importante, mas de uma nova maneira, como nos abraços, beijos, cafunés enquanto se assiste a um filme junto, por exemplo… Além disso, a relação ganha novas possibilidades e o afeto pode ser vivido e demonstrado pelo interesse nas experiências que a criança se torna capaz de compartilhar, ou pelos novos passeios que se tornam possíveis de serem vividos na companhia da criança na medida em que ela conquista mais autonomia, entre outras possibilidade… Essa abertura para a transformação na relação nos permite abrir mão de hábitos, como tomar banho juntos, que em um período da vida são muito divertidos e prazerosos, mas que se não forem atualizados podem dificultar o crescimento da criança!