Como acalmar a criança no momento da birra?

Birra, chilique, manha… todos esses são nomes usados para se referir ao choro, aparentemente sem motivo, ou a um comportamento, no qual criança expressa certa resistência para obedecer seus pais ou para cumprir a rotina do dia a dia. Quando os pais dizem que a criança está fazendo manha parece que, na maioria das vezes, se referem a uma tentativa da criança de conseguir o que quer. O chilique parece que, se refere às situações, nas quais a criança se expressa de forma mais intensa. Enquanto que a birra é um nome que muitos pais usam para se referir à reação da criança, quando ela é contrariada. No dia a dia, isso pode variar, mas é importante ressaltar que, em todos esses casos, a dificuldade dos pais de se relacionar com seus filhos nessas situações, tem início com a dificuldade de identificar e nomear a emoção que a criança está expressando. Tanto a birra, quanto a manha e o chilique são nomes, que não só não identificam a emoção; como a escondem, já que colocam diferentes emoções em um único rótulo e, assim, dificultam a possibilidade de pensar qual cuidado pode ser oferecido para a criança.

Nesse texto, vou tentar explicar, qual emoção pode estar “escondida” por traz do rótulo da birra.   Geralmente, o que os pais costumam definir como birra é a reação da criança quando ela é contrariada. Assim, a birra, em muitos casos, pode representar a dificuldade da criança de aceitar o “não” que ela ouviu. Então, ajudar a criança a se acalmar no momento da birra é, muitas vezes, o mesmo que ajudá-la a lidar com a frustração que esta experiência provoca. O “não” é necessário e ensina para a criança que, em algumas situações, ela vai precisar se adaptar a regras e às necessidades dos outros. Essa é uma aprendizagem muito importante, pois permite que ela possa se relacionar com flexibilidade com as outras pessoas, sem precisar impor suas vontades. Porém, para que esse aprendizado aconteça, a frustração que a criança sente no momento em que ouve o “não” precisa ser cuidada. E como cuidar da frustração? Como ajudar a criança a lidar com a frustração?

Em primeiro lugar, é importante acalmar a criança e isso só é possível quando os pais conseguem se manter calmos. Nessa hora, pode ajudar pensar que, o choro da criança mostra que ela precisa aprender a se controlar, e não que ela está desafiando a autoridade dos pais. Então, no momento em que a criança é contrariada e expressa a frustração que está sentindo, tente se manter tranquilo (a), olhe nos olhos dela e peça para que ela respire fundo, até que ela possa se acalmar. Esse cuidado é importante porque enquanto a criança estiver chorando muito intensamente e estiver tomada pela emoção, ela não vai conseguir ouvir nada do que os pais têm a dizer. Assim, com esses gestos, conforme a criança se acalma, é possível ajudá-la a aceitar e superar a frustração.

Para isso, os pais podem experimentar ajudar a criança a nomear a frustração que ela está expressando. Podem dizer, por exemplo, que parece que ele (a) está se sentindo frustrado e que, realmente essa é uma sensação, que incomoda bastante! Quando a criança ouve o nome da emoção que ela está sentindo, ela experimenta um alívio, se organiza e se sente compreendida, o que pode contribuir para que ela se acalme e fique ainda mais receptiva e aberta para que os pais possam oferecer outro cuidado, que pode ajudá-la a superar a frustração: explicar o sentido do “não” que foi dito a ela.

A criança pode permanecer frustrada e, por isso, continuar chorando e reclamando até que ela consiga entender o sentido do “não” que foi dito. Por isso, mesmo que seu filho seja bem novinho, tente explicar o motivo do “não” que você disse para ele. Antes mesmo da criança conseguir falar com fluência, ela é capaz de entender e a capacidade, que ela tem de entender a explicação dos pais pode ajudá-la a dar um sentido para a frustração e, assim, superar essa experiência. Pensando que a criança esteja frustrada porque viu um brinquedo na vitrine do shopping e quer o brinquedo, depois de acalmá-la, os pais podem explicar o sentido do “não” dizendo algo como: Eu entendi, você está frustrada porque quer um brinquedo e nós não vamos comprar, mas esses presentes nós compramos apenas em datas especiais, como no seu aniversario ou no dia das crianças. Hoje, viemos ao shopping para ir ao cinema. Então vamos continuar nosso passeio e nos divertir!

Assim, depois, que a criança conseguiu superar a frustração, é importante não prolongar o mal estar na relação com ela; não ficar sem falar com a criança ou falar de forma ressentida. Se  agirem dessa forma, os pais vão fazer com que a criança entenda que, expressar suas emoções pode provocar um sofrimento muito intenso e prolongado. E, é possível que, com o tempo, ela passe a “abafar” suas emoções; ao invés de expressá-las e aprender a se controlar. Por isso, uma vez superada a frustração, é importante que os pais “virarem a página” e retomem o que estavam fazendo com seu filho (a) para que possam voltar a desfrutar da sua companhia. Esse desentendimento provocado pela birra da criança, que na verdade foi uma oportunidade para a criança aprender a lidar com a frustração, não precisa e, nem deve, “estragar” o dia de vocês!

O que fazer quando seu filho tem um tique ou uma mania?

Os tiques são movimentos involuntários que as crianças realizam de forma repetitiva, como piscar os olhos ou tensionar um músculo; enquanto que as manias são comportamentos, nos quais a criança demonstra ter dificuldade para se controlar e, como consequência, não consegue parar de agir dessa forma. Como, por exemplo, a mania de morder a gola da camisa ou de puxar os cabelos. Nestas situações, é compreensível, que surjam muitas dúvidas e certa preocupação, principalmente, pelo receio de que os tiques e as manias possam começar a interferir nas relações da criança. Por isso, é importante refletir sobre quais cuidados podem ajudar as crianças nestas circunstâncias.

Quando um tique parece mais complexo, pois envolve a combinação de diferentes movimentos ou falas, vale a pena consultar um neurologista para descartar que exista uma causa orgânica. Porém, nos casos das manias ou de tiques menos complexos é bem provável que esta seja uma maneira, que a criança encontrou para se aclamar no contato com uma emoção que ela experimenta de forma mais intensa. Em muitos casos, a emoção mais frequente que está por traz dos tiques e das manias é o medo, o que faz sentido, porque a repetição e a estabilidade dos gestos que ela realiza pode oferecer para a criança uma sensação de controle, segurança e previsibilidade.

Para pensar em quais cuidados podem ajudar a criança a abrir mão dos tiques e das manias é preciso entender qual a emoção que ela está sentindo de forma mais intensa. Se for, de fato, o medo, é importante entender o que está fazendo com que a criança se sinta dessa forma. É possível que tenha sido uma situação pontual, na qual a criança tenha presenciado uma cena de violência ou de agressividade, como ter sido vítima de um assalto, por exemplo.  Nestas situações, a criança pode sentir medo de que este evento volte a acontecer de forma inesperada e desenvolve os tiques e as manias para aliviar a ansiedade que ela experimenta.  Um cuidado que pode ser útil nesse contexto é tentar renovar a sensação de proteção da criança, oferecendo um objeto que represente um amuleto, por exemplo. Desse modo, a criança pode recorrer a este objeto mesmo quando as pessoas da sua confiança não estão por perto e a sensação de segurança, que o objeto proporciona vai, aos poucos, sendo assimilada.

Existem, ainda, outras situações pontuais, que não são tão evidentes, mas que também podem provocar medo ou insegurança na criança. Diante de acontecimentos, que mudam a sua rotina (o nascimento de um irmão ou a mudança de babá, por exemplo) e, que não foram comunicados para a criança, ou que ela não conseguiu verbalizar suas dúvidas e receios, é possível que a criança não consiga assimilar e antecipar como será sua nova rotina. Diante desse contexto, ela pode passar a se sentir insegura, com a sensação de que novas mudanças podem acontecer de forma imprevista. A criança pode, então, fazer uso dos tiques e das manias não só como uma forma de anestesiar a ansiedade que experimenta, mas também como uma experiência, que lhe oferece a sensação de ter controle sobre os acontecimentos. Nesses casos, os pais podem experimentar comentar que perceberam que o (a) filho (a) está inseguro com as mudanças que enfrentou e explicar quais são as outras mudanças que estão previstas para acontecer. Estas informações, na medida em que são assimiladas pela criança, podem lhe oferecer uma sensação de segurança e, aos poucos, ela pode abrir mão dos tiques e manias.

Em outros casos, é possível que o medo não tenha sido provocado por um evento específico, mas pela forma de se relacionar, que se estabelece entre a criança e as pessoas que cuidam dela. Muitas vezes, um tom mais agressivo e uma fisionomia severa nas interações com o (a) filho (a), combinados com uma maior sensibilidade da criança, podem ser fatores que fazem com que ela sinta medo do contato com os pais. Nesses casos, além do medo, é comum que a criança também se sinta sozinha para lidar com seus problemas e com as suas emoções, o que pode intensificar a insegurança que ela vivencia. Assim, os tiques e as manias se tornam uma forma da criança cuidar de si, buscando alívio para as suas emoções por conta própria. Nesse contexto, talvez, seja necessário buscar o apoio de um psicoterapeuta, que possa tanto ajudar os pais a compreender a experiência do (a) seu (a) filho (a); como ajudar a criança a restaurar a confiança na relação com eles, para que a comunicação possa acontecer e a criança possa superar o isolamento que enfrenta.

De qualquer forma, quando as manias e os tiques persistem por um período de tempo prolongado, o apoio da psicoterapia pode ser uma alternativa importante. Quando os tiques e manias são desencadeados por situações pontuais, os pais podem se beneficiar da psicoterapia para receber referências e orientações de como ajudar a criança a lidar com o medo e a insegurança, que ela sente. Enquanto que a criança pode se beneficiar de cuidados que a ajudam a expressar suas emoções de uma nova forma. Além disso, nos casos em que o medo é um efeito da forma de se relacionar com a criança, a ajuda de um psicoterapeuta pode ser importante para promover a mediação da comunicação entre pais e filhos, o que pode permitir que o medo que a criança sente possa ser superado, na medida em que a confiança na relação é reestabelecida.

Curso: O Desenvolvimento Infantil, O Raciocínio Clinico e as Modalidades de Cuidado na Clínica Gestática com Crianças

Estou muito contente com a oportunidade de oferecer, mais uma vez, um curso de expansão cultural no Instituto Sedes Sapientiae!!

Pretendo, com este curso, compartilhar o que venho estudando no meu doutorado: os cuidados que podem ajudar as crianças no seu desenvolvimento e na psicoterapia.

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