Cuidados no desenvolvimento de irmãos gêmeos

A identidade de uma pessoa se desenvolve na medida em que ela se sente reconhecida por quem é, pelo que é capaz de fazer e pelo que provoca nos outros. Na infância, esse processo acontece ao longo de varias interações, quando os pais reconhecem novas habilidades, como a facilidade para praticar esportes, por exemplo; ou características, como a generosidade em tentar ajudar os amigos. E às vezes, em gestos mais sutis, como o brilho no olhar ao encontrar o filho(a). A fisionomia dos pais pode comunicar para a criança que ela é amada e capaz de proporcionar alegria para os outros. Para a criança, o desenvolvimento da sua identidade significa a possibilidade de se sentir segura nos recursos que ela passa a reconhecer em si mesma e, assim, conquistar cada vez mais autonomia.

Para que o olhar dos pais possa estar disponível para reconhecer as características do seu filho(a) e ajudá-lo(a) a construir a sua identidade, é importante que eles possam estar presentes nas interações com a criança, tanto física, quanto emocionalmente. Porém, a vida agitada, os excessos de compromissos e os imprevistos da vida, muitas vezes, entram no caminho dessas interações. Assim, esses cuidados que ajudam na construção da identidade da criança representam um desafio até mesmo para os pais que tem um filho(a) único(a). Os pais que têm duas crianças pequenas, muitas vezes, experimentam uma fase da vida ainda mais agitada quando as crianças são novas. Desse modo, o desafio de se manter presente na interação com cada um dos filhos para reconhecer as suas características é ainda maior. Para os pais de filhos que são gêmeos, além da agitação maior que duas crianças pequenas provocam no dia a dia, talvez, existam ainda outros fatores que podem dificultar o olhar para as características de cada filho, como a semelhança física e o fato de terem a mesma idade e se desenvolverem ao mesmo tempo. Por isso, quando se tem filhos gêmeos, oferecer cuidados que ajudam na construção da identidade de cada um pode ser um dos cuidados que os pais precisam concentrar sua energia com maior dedicação!

Pensando nisso, os pais de filhos gêmeos precisam direcionar a sua atenção no sentido de identificar as diferenças de cada um dos filhos, já que é nas diferenças que a identidade de cada um se revela. Enquanto os filhos ainda são bebês, talvez, mesmo com ajuda de outras pessoas, pode ser difícil reconhecer as diferenças de cada filho, já que o trabalho de cuidar de dois bebês pequenos pode consumir quase toda a energia dos pais. Esse cuidado, possivelmente, se torna possível com o tempo. Conforme as crianças crescem, fica mais fácil perceber se um filho gosta mais de esporte ou de desenhar para realizar essas atividades junto com ele, mesmo que o outro não acompanhe, por exemplo. E nesses momentos nos quais a característica individual de um é reconhecida, a diferença entre os irmãos é ressaltada e o outro filho encontra espaço para também expressar a sua preferência e ser atendido em outro momento. O grande desafio, portanto, é conseguir reconhecer e reagir de forma diferente com cada um dos filhos que são gêmeos para construir relações que inclua a singularidade de cada um, mesmo quando eles têm a aparência e o desenvolvimento tão semelhantes.

Assim, permitir e incentivar que os filhos que são irmãos gêmeos façam cursos e passeios que correspondam com as preferências que eles comunicam é um cuidado que pode ajudar a ressaltar a diferença que existe entre eles e a construir a sua identidade ao longo do tempo. Além disso, existem situações nas quais as diferenças aparecem de forma mais sutil e que também, se forem respeitadas, podem contribuir para que os filhos gêmeos se apropriem da sua identidade pessoal. Um filho pode ser mais reservado e se sentir menos a vontade para cumprimentar e conversar com estranhos, por exemplo, enquanto que o outro pode ser mais expansivo. Se essas reações forem entendidas como características pessoais e forem respeitadas, as crianças aprendem mais sobre si mesmas ao invés de precisarem fazer um esforço para permanecer igual e indiferenciado do irmão. E também, chamar as crianças pelos nomes, ao invés de perguntar pelos “gêmeos”, e pedir para que as pessoas que fazem parte do convívio direto deles também façam o mesmo é um cuidado importante para que eles reconheçam cada vez mais as suas diferenças.

Assim, a atenção voltada para a construção da identidade a partir do reconhecimento das diferenças, diante de uma relação que evidencia tantas semelhanças, é um cuidado que ajuda os filhos que são gêmeos a reconhecerem em si as suas habilidades e características e, dessa forma, se sentirem cada vez mais seguros em relação aos seus próprios recursos para que se tornem capazes de levar a sua vida com independência e autonomia. Quando a construção da identidade fica comprometida por algum motivo, a criança não assimila a segurança em seus recursos próprios e tende a se tornar dependente da presença de outra pessoa para se sentir confiante. No caso dos irmãos gêmeos, o risco é que eles se tornem dependentes da presença física um do outro para que possam e sentir seguros.

No entanto, se existe esse risco, existe também a possibilidade dos irmãos conseguirem, com o apoio dos cuidados que recebem, desenvolverem a sua identidade e uma sensação de segurança em si mesmos, que lhes permita ter autonomia, ao mesmo tempo em que podem também se beneficiar de um vínculo de intimidade único que irá lhes acompanhar ao longo da vida e lhes proporcionar uma sensação ainda maior de segurança proporcionada pela relação que existe entre eles!!

Como ajudar os filhos a lidar com as emoções?

Ajudar as crianças a lidar com suas emoções é um dos cuidados mais importantes para o seu desenvolvimento, pois permite que elas possam assimilar a confiança necessária para desenvolver o seu potencial. Porém, nem sempre isso é fácil, principalmente porque quando acontece algo que deixa a criança triste, irritada, frustrada ou com medo, por exemplo, a tendência é achar que a criança esta se comportando mal, ou manipulando os pais para conseguir o que quer. É comum também que nos momentos em que a criança expressa suas emoções, os pais fiquem com receio de que a criança seja frágil e venha a enfrentar dificuldades para se adaptar às inúmeras exigências da vida adulta no futuro.

Quando essas preocupações assumem o primeiro plano nas interações com os filhos fica mais difícil ajudá-los a lidar com as suas emoções. Isso porque essas crenças levam quase que de forma automática a reações criticas. Por isso, a primeira dica para ajudar a criança a lidar com suas emoções é tentar deixar essas crenças de lado para que seja possível se manter aberto para a experiência dela. Com isso, é possível ter empatia para se colocar no lugar da criança.

Como uma emoção geralmente é provocada por um acontecimento, para conseguir ter empatia e se colocar no lugar da criança, pode ser útil pedir para que ela descreva o que aconteceu.  Conforme a criança conta, é possível, por meio da empatia, identificar o que você sentiria se estivesse no lugar do seu filho(a) para ajuda-lo(a) a nomear a sua emoção. Então, a segundo dica é ajudar a criança a dar um nome para o que ela esta sentindo por meio da empatia com a experiência dela. Assim, quando a reação da criança diante do que sente (choro, gritos ou o retraimento, por exemplo) é denominada como tristeza, raiva ou medo, fica mais claro identificar como ela pode agir para superar essas diferentes emoções.

Além disso, com o tempo, conforme a criança apreende a nomear suas emoções por conta própria, é possível que ela deixe de reagir de forma automática ao que esta sentindo (chorando, agredindo ou se recusando a ir a algum lugar) e passe a pedir ajuda de forma mais clara. Essa habilidade que a criança desenvolve ajuda muito a evitar conflitos, já que uma criança que chora ou age de forma agressiva, sem que os pais consigam identificar o sentido desses comportamentos, pode provocar irritação e afastar os outros. Enquanto que quando a criança comunica por meio de palavras o que sente, pode receber apoio com mais facilidade.

Então, no momento em que a emoção da criança foi identificada, a empatia dos pais também pode ajudar a agir para lidar com o que esta sentindo. A empatia ajuda nesse momento, porque os pais podem buscar referências nas suas próprias experiências para identificar como eles agem para se sentir melhor no contato com suas emoções. Assim, a terceira dica para ajudar a criança a lidar com suas emoções é refletir sobre o que você próprio faz quando esta em contato com a emoção que seu filho(a) esta experimentando.  Quando os pais percebem que em situações que provocam medo, eles recorrem à segurança de um objeto que representa um amuleto; ou que nas situações de raiva, buscam o apoio de uma pessoa de confiança para poder desabafar; eles podem compartilhar essas experiências com seu(a) filho(a) e sugerir que a criança faça o mesmo. Com o tempo, a tendência é que a criança assimile nessas interações diferentes referências do que pode ser feito quanto se sentir de uma determinada forma. Assim, não só ela aprende a identificar o que sente, mas também terá referências que orientam a sua ação no contato com suas emoções. Desse modo, a criança pode assumir o controle sobre suas emoções e não paralisar, tampouco reagir de forma automática, sem consciência guiada apenas pelo que sente. Ela pode reconhecer o que sente e escolher como irá agir.

Porém, é importante ressaltar que, os pais terão mais facilidade de ajudar seus filhos a nomear suas emoções e a agir de forma consciente, quanto maior for a consciência deles próprios sobre as suas emoções e a forma como agem no contato com seus próprios sentimentos. Por isso, refletir sobre suas próprias experiências para tentar nomear as emoções que vivenciam no seu dia a dia e perceber de que forma agem no contato com suas emoções, não só evita que tenham reações automáticas e sem consciência, ou seja, é um cuidado consigo mesmo; como também é um movimento que pode influenciar, de maneira muito positiva, na qualidade dos cuidados que serão capazes de oferecer para ajudar seus filhos a lidar de maneira cada vez mais saudável com suas emoções.

Dicas para amenizar o hábito da criança de roer as unhas

Como a infância é uma fase de muitas descobertas e as crianças ainda estão reconhecendo em si, a capacidade de enfrentarem os desafios do dia a dia, é comum que se sintam ansiosas e inseguras. Diante da insegurança, cada criança pode buscar uma “válvula de escape” diferente, com a intenção de se distrair e tentar se aclamar. Enquanto algumas crianças podem desenvolver outros hábitos como enrolar o cabelo, ou ficar balançando a perna quando estão sentadas; muitas crianças costumam roer as unhas como uma forma de amenizar a ansiedade e a insegurança que experimentam no dia a dia.

Mesmo que essa sensação de insegurança seja uma experiência constante para as crianças, é interessante notar que, geralmente, elas costumam roer as unhas em dois momentos aparentemente opostos. Ou nas situações nas quais a ansiedade e a insegurança são mais intensas, como na hora em que estão pensando para responder as questões da prova na escola, por exemplo. Ou, nos momentos em que estão descansando, como quando estão sentadas assistindo televisão. Isso porque nos momentos em que a insegurança é mais intensa, elas precisam do alívio imediato que esse hábito proporciona. Enquanto que nos momentos de repouso, quando não estão distraídas com as atividades, a insegurança que experimentam no dia a dia é vivida e percebida por elas com mais clareza.

Nesses momentos, é comum que o hábito de roer as unhas chame a atenção dos pais e eles fiquem em dúvida de como agir. Se a criança rói as unhas nesses momentos, quando está em repouso, ou em situações especificas mais estressantes; e se ela não se machuca ao fazer isso, é sinal de que esse é apenas um hábito, que ela desenvolveu para amenizar suas inseguranças e se acalmar em situações de estresse. É possível que, conforme ela cresça e desenvolva novas habilidades para lidar com os desafios do dia a dia, esse hábito seja naturalmente amenizado. No entanto, se os pais percebem que a criança está roendo as unhas com uma frequência e intensidade cada vez maior, ao ponto de estar constantemente com as mãos na boca e com os dedos machucados, existem alguns cuidados que podem ajudar a criança a abrir mão do alívio que esse hábito lhe proporciona:

Converse com seu filho sobre os desafios e a insegurança que ele sente no dia a dia

Quando a criança consegue comunicar suas experiências e é acolhida ao fazer isso, ela encontra o apoio, que precisa para se sentir mais segura diante das novidades e desafios, que enfrenta nas suas relações.
Ao se sentir mais segura, é possível que a hábito de roer unhas diminua. No entanto, nem sempre é fácil ajudar a criança a comunicar suas experiências nas conversas e interações do dia a dia. Muitas vezes, quando as perguntas são muito amplas ou abstratas, a conversa fica “travada”, não se desenvolve. Perguntas como: Como foi seu dia? Alguma novidade?Costumam ser respondidas pelas crianças de forma monossilábica: Bom… Não… Por isso, a dica para que a conversa se desenvolva até que a criança consiga compartilhar as experiências que a deixam insegura é fazer perguntas mais detalhadas e concretas. Além de transformar a conversa em uma brincadeira para que o diálogo com a criança possa se manter em andamento.

Assim, na hora em que for buscar seu filho (a) na escola ou dar banho nele (a), por exemplo, experimente perguntar dos amigos, falando o nome deles. Pergunte se o Pedro, o João, ou a Marina, por exemplo, foram à escola e se seu filho (a) brincou com esses amigos e do que eles brincaram. Ou ainda, experimente transformar a conversa em uma brincadeira para se aproximar da linguagem lúdica que a criança acessa com mais facilidade. Pensando nos amigos mais próximos, ou mesmo na professora, peça para seu filho falar três coisas boas sobre essas pessoas e três coisas não tão legais, por exemplo. E a partir das respostas que ele (a) der, se disponha a não julgar, apenas escutar com atenção e compartilhar experiências semelhantes que você viveu com seus professores e amigos na escola. Quando essa troca é possível, além da criança encontrar um ponto de apoio importante para amenizar a insegurança que experimenta no dia a dia; ela ainda assimila as referências que você compartilhou, o que amplia o repertório que ela terá a disposição para lidar com os obstáculos do dia a dia. Assim, com a repetição de diálogos com esta qualidade, é possível que a insegurança que a criança sente no seu dia a dia seja amenizada com o tempo e o hábito de roer unhas não seja mais tão necessário.

Ajude seu filho a expressar a insegurança de forma mais criativa

Outra dica que pode ajudar a criança a abrir mão do seu hábito de roer as unhas para amenizar a insegurança e a ansiedade que sente é ajudá-la a expressar suas inseguranças de forma mais criativa. Se a criança começa a roer as unhas quando não está fazendo nada, tente sugerir que ela faça um desenho, ou pegue um livro de desenhos para colorir junto com ela, por exemplo. Se a criança tiver um hobby como tocar um instrumento musical, ou se ela gosta de dançar, você também pode sugerir que ela vá fazer isso. Dessa forma, a criança aprende que pode agir no contato com a insegurança para se expressar criativamente e produzir algo criativo, o que pode até contribuir para a ampliação da sua autoestima. Com o tempo, esses hobbys podem não só se transformar em uma nova “válvula de escape” mais produtiva e construtiva do que o hábito de roer as unhas; como também podem contribuir para que a criança se sinta mais segura, na medida em que ela reconhece em si novas habilidades e sua autoestima se fortalece.

Assim, é natural que as crianças precisem de “válvulas de escape” para lidar com a insegurança que sentem diante dos constantes desafios que se apresentam ao longo do seu crescimento. O hábito de roer as unhas pode ter essa função, mas quando este hábito se torna muito frequente e intenso pode ser um sinal de que a criança precisa de alguns cuidados que a ajudem a compartilhar a insegurança que sente e a expressá-la de forma mais criativa. Porém, se mesmo assim, a criança permanece constantemente com os dedos na boca e se machuca ao fazer isso, talvez, pode ser útil procurar a ajuda de um psicólogo para que seja possível compreender se existem outras emoções e necessidades que a criança está com dificuldade de compartilhar e quais cuidados podem ajudá-la a lidar com o que está sentindo de forma mais criativa.