A função dos limites no desenvolvimento da criança e a importância da forma como são colocados

 

No dia a dia, os limites aparecem na relação dos pais com seus filhos desde cedo, conforme a criança começa a andar e o seu principal interesse passa a ser o de explorar o ambiente. Nessa fase, os pais precisam repetidas vezes impedir o movimento da criança com a intenção de protegê-la. Ou seja, no dia a dia, o limite costuma ser colocado pelos pais de forma natural e essas experiências são importantes, não só para manter a criança segura, mas também porque os limites exercem diferentes funções no seu desenvolvimento. Quando a criança ouve seus pais dizerem “não” fica muito claro para ela que a vontade dela é diferente da vontade dos seus pais. Por isso, os limites são uma forma de fazer com que a criança entre em contato com a diferença!

A ideia de que as outras pessoas podem sentir e querer coisas diferentes de mim é um recurso que é desenvolvido pela criança ao longo de todas as suas interações desde o seu nascimento, mas é reforçado pelos limites que são colocados pelos pais. A noção da diferença tem inúmeras funções no desenvolvimento, uma delas é de permitir que a criança se ajuste às necessidades dos outros, ou às regras de um ambiente, quando necessário. Além disso, quando a criança ouve um “não” dos seus pais, esse momento também se torna uma oportunidade para desenvolver a sua capacidade de buscar soluções criativas. Por exemplo, uma criança vai com seus pais visitar a casa de amigos da família e enquanto seus pais conversam, ela começa a mexer nos objetos de decoração da casa. Nesse momento, seus pais falam para ela parar de mexer nesses objetos. A partir do limite que é colocado, a criança pode reagir à frustração de forma automática chorando, por exemplo, ou pode buscar uma solução criativa e começar a se entreter com os brinquedos que sua mãe lhe oferecesse.

Esse exemplo ilustra também que a forma como os limites são colocados e como os pais reagem à frustração do seu filho(a) pode contribuir ou não para que o limite  seja vivido pela criança como um cuidado. E um dos cuidados relacionados à forma como os limites são colocados é tentar ajudar a criança a reagir de forma criativa diante do “não”! Uma mãe ou um pai que pede para o filho(a) parar de mexer nos objetos da casa do amigo, levanta para buscar os brinquedos que trouxe e começa a brincar até que seu filho(a) consiga se entreter sozinho, esta ajudando a criança a encontrar uma solução criativa!

Além de ajudar a criança a buscar soluções criativas, outro cuidado importante relacionado à forma como os limites são colocados é tomar cuidado para não reagir à frustração que a criança expressa de forma desproporcional! Quando a criança se sente frustrada, ela pode chorar, ou ser agressiva com os pais, que podem, de forma bastante compreensível, ficar irritados. A irritação é natural e mostra apenas que os pais são humanos. O problema acontece quando a irritação é tão intensa que os pais mudam a qualidade da relação com seu filho por um período de tempo prolongado.

Imagine que você discutiu com sua mãe por um motivo aparentemente sem importância e a partir dessa discussão fica um “clima” estranho e vocês não se falam direito ou não conseguem agir de forma espontânea por algumas semanas. Um adulto provavelmente vai ficar incomodado com essa situação, mas tem autonomia para lidar com esse incomodo. Ele pode se dedicar as suas outras relações, por exemplo. Com uma criança é diferente, se a qualidade da relação com seus pais muda dessa forma por tanto tempo, ela encontra poucas maneiras de sair desse incomodo.  Quando o mal estar na relação se prolonga, é possível que a criança se sinta excluída das relações familiares. Por isso, é importante ficar atento e desenvolver o hábito de refletir sobre a qualidade da relação com os filhos. É a nossa capacidade de reflexão que torna possível identificar quando existe um distanciamento prolongado provocado pela irritação e ressentimento e, a partir dai, agir de forma intencional para se reaproximar da criança e retomar a relação com a mesma qualidade de antes! Caso contrário, o limite deixa de ensinar para a criança sobre as diferenças e a criatividade e pode se tornar uma experiência de exclusão, que provoca muito sofrimento.

Assim, os limites são necessários e importantes para a criança, mas eles só vão ser vividos como um cuidado que ajuda no desenvolvimento da criatividade e da percepção das diferenças, se a criança encontrar apoio para lidar com o “não” de forma criativa e, principalmente, se a qualidade da relação for preservada apesar da irritação que esses momentos de confronto podem provocar!!

O que fazer quando a criança diz “eu te odeio”

 

 

Qualquer criança, em uma discussão mais acalorada, pode sentir raiva dos pais e acabar dizendo que os odeia. Em muitas situações, quando isso acontece, tanto a criança quanto os pais percebem que exageraram, eles se desculpam e a situação é esquecida. Porém, existem casos em que as discussões nas quais a criança chega a dizer para os pais que os odeia se tornam frequentes. Nessas situações, é comum que os pais sejam afetados de forma cada vez mais intensa. Alguns ficam muito magoados, enquanto outros podem ficar extremamente irritados. Se a emoção toma conta, é possível que os pais reajam de foram automática. Ou mostrando que ficaram muito ofendidos, “fechando a cara” para a criança durante o resto do dia, por exemplo. Ou ainda, respondendo de forma agressiva e dando início a um “bate boca”.

O problema dessas reações automáticas, desencadeadas por emoções intensas, é que não permitem que os pais possam compreender o sentido dessa fala da criança e, sem essa compreensão, não é possível ensiná-la a se expressar de uma forma diferente. Por isso, nesse texto, pensei em explicar algumas possíveis razões que podem levar a criança a dizer, com frequência, que odeia seus pais e, assim, tonar mais fácil a definição do que pode ser feito nessas situações.

Essa pode ser uma reação da criança quando ela sente que não é escutada

Todas as pessoas para se sentirem seguras numa relação têm a necessidade de poder se expressar e de serem escutadas. Com as crianças, essa necessidade não é diferente. No entanto, muitos pais acreditam que ouvir a necessidade da criança significa obrigatoriamente atendê-la e que isso pode tornar a criança mimada. Por isso, é comum que tomem muitas decisões, como decidir um novo curso que a criança irá fazer, ou mudá-la de escola, por exemplo, sem se preocupar em contar para a criança as mudanças que ela irá enfrentar. Mesmo que a decisão já esteja tomada, é importante compartilhar a decisão com a criança. Assim, ela encontra um sentido para o que vai enfrentar e, além disso, encontra também a abertura necessária para compartilhar as sensações que essa experiência pode despertar. Do contrário, sem diálogo, é possível que a criança não sinta que os seus sentimentos são incluídos nas relações familiares. Nesse contexto, a raiva que ela expressa quando diz que odeia os pais pode representar uma maneira de “obrigá-los” a identificarem o que ela esta sentindo, fazendo com que eles sintam a mesma raiva, tristeza e frustração que a criança já sente há algum tempo.

Dizer “eu te odeio” pode ser uma maneira de comunicar um sofrimento

De modo semelhante ao que acontece no exemplo anterior, quando a criança enfrenta uma situação que lhe provoca sofrimento, é possível que ela não consiga verbalizar o que sente e, nesses casos, provocar as mesmas sensações nos seus pais, dizendo que os odeia, pode ser a maneira de comunicar a sua experiência. Por exemplo, se a criança brigou com os amigos na escola e não tem a habilidade de refletir sobre como os acontecimentos lhe afetam, nem o hábito de buscar alguém para lhe orientar a como agir nos momentos em que se sente mal; a raiva e a tristeza que sente quando encontra com esses amigos dificilmente será superada. Assim, a criança permanece em constante contato com essas sensações e uma simples discussão em casa pode ser o suficiente para que ela fique muito nervosa e reaja de forma agressiva dizendo que odeia seus pais. Desse modo, os pais são afetados pelas mesmas sensações que a criança está vivenciando há tempos e, se puderem refletir e perguntar para o seu filho sobre os acontecimentos que ele vem enfrentando, é possível que consigam transformar esse episódio de conflito em uma experiência na qual o sofrimento da criança encontrou o apoio necessário para ser comunicado.

Pode ser uma maneira de se relacionar que se estabeleceu com a criança

Existem situações também em que a agressividade se torna uma maneira que a criança assimila de se relacionar. Quando a postura de autoritarismo, ou as falas em um tom agressivo fazem parte da relação com a criança de forma constante, é possível que ela assuma uma posição de submissão na relação com os pais. E, assim, quase como um movimento de compensação em situações inesperadas, é possível que ela se comporte de forma oposta, assumindo uma postura agressiva e autoritária não só na relação com os pais, como com os amigos também.

Por isso, quando a criança diz frases nas quais ataca de forma intensa seus pais, como quando diz que os odeia e esse comportamento não é parte de uma discussão isolada, mas de um conflito recorrente na família, é preciso ficar atento. Ou para a maneira como se relaciona com a criança, ou para ajudar a criança a “dar voz”  para uma experiência ou sofrimento que possivelmente ela não consegue comunicar de outra forma!

Como cuidar da alimentação da criança sem radicalismo

 

 

Com o aumento dos índices de obesidade na infância e com as pesquisas que permitiram identificar as complicações que o excesso de peso pode provocar na saúde, surgiu a necessidade de pensar em prevenir as doenças e promover a saúde das crianças. Para isso, nos últimos anos, a ideia de estimular uma alimentação saudável na infância foi muito divulgada. No entanto, a divulgação dessa ideia, na maioria das vezes, se limitou aos aspectos nutricionais dos alimentos e os fatores emocionais, que dão suporte para uma relação saudável com a comida, nem sempre foram considerados. 

É importante que esses fatores sejam identificados e cuidados, porque quando a criança enfrenta alguma dificuldade emocional é possível que ela faça uso dos alimentos como forma de se acalmar. Nesses casos, os pais, muitas vezes, reagem ao comportamento da criança, proibindo certos alimentos ou estabelecendo regras muito rígidas para a sua alimentação. No entanto, até que as questões emocionais sejam cuidadas; as restrições mais severas na dieta da criança dificilmente terão um efeito duradouro. Por outro lado, quando as questões emocionais são cuidadas, os pais podem oferecer referências sobre uma alimentação saudável, mas de forma mais tranquila, sem a necessidade de proibições ou restrições severas, já que a criança não tende a cometer exageros quando a comida deixa de exercer a função de acalmá-la.

Pensando nisso, nesse texto vou apresentar alguns fatores emocionais que precisam ser cuidados para que a criança possa ter uma relação equilibrada com os alimentos e, assim, a atenção que os pais dedicam a alimentação do seu filho(a) também pode ser melhor distribuída e equilibrada entre as outras necessidades da criança. Com isso, os pais podem orientar a criança a ter uma alimentação saudável no dia a dia sem radicalismos, nem exageros:

A capacidade da criança identificar e comunicar o que sente.

Ajudar seu(a) filho(a) a identificar e comunicar o que sente é um cuidado que pode beneficiá-lo(a) de diferentes maneiras no seu desenvolvimento. Em relação a alimentação, esse cuidado é fundamental porque as emoções despertadas no corpo da criança, assim como no adulto, são vividas em um primeiro momento como uma agitação, uma energia que é despertada na interação com as pessoas. Conforme a criança aprende que essa energia tem um nome, ela pode agir e retomar a sensação de tranquilidade e bem estar (por exemplo, quando a criança percebe que seu amigo disse algo que a deixou irritada, ela pode falar que não gostou do que ele disse. Se o amigo se desculpa, a raiva passa e a criança se tranquiliza). Quando a criança não aprende a identificar suas emoções, a energia associada a raiva, a tristeza, ou ao medo fica contida no seu corpo, provocando agitação e mal estar. Nesse contexto, algumas crianças expressam essa agitação (que é o que chamamos de ansiedade) diretamente e não conseguem “ficar paradas”; enquanto outras podem buscar na comida uma forma de se acalmar ou de anestesiar a sensação de mal estar que vivenciam.

Quando o desenvolvimento da capacidade de perceber suas emoções esta paralisado, a compulsão por alimentos que a criança desenvolve como forma de se acalmar, se torna muitas vezes o comportamento mais evidente e que chama a atenção dos pais. Se isso acontece, é comum que a sua reação seja a de proibir o consumo de doces, ou dos lanches preferidos da criança como forma de ajuda-la a se controlar, mas se o fundo emocional, ou seja, a dificuldade de comunicar o que sente, não for cuidada, é bem provável que a ansiedade seja uma experiência constante para a criança e, na primeira oportunidade que ela tiver contato com os alimentos que gosta, ira consumi-los de forma exagerada, em busca de alívio para a sua agitação.

Identificar maneiras de proteger a criança do estresse prolongado

O estresse para as crianças, assim como para os adultos pode ter uma função positiva. Quando precisam fazer uma prova, ou uma apresentação na escola, por exemplo, as crianças podem ficar nervosas e essa sensação é o que as motiva a estudar e se concentrar no momento da prova. Ou seja, o estresse quando é despertado por um curto período de tempo, tem uma função positiva, de preparar a criança para usar as suas habilidades diante de um desafio. Quando o desafio termina, o estresse diminui.

Porém, quando a criança vive sob o efeito constante do estresse, esse efeito positivo desaparece e a criança passa a viver em alerta, preocupada e nervosa, o que também a deixa em um estado de agitação. Os fatores que podem deixar a criança estressada e agitada variam muito e podem ser desde uma maneira agressiva dos pais de se relacionar, até repetidos acontecimentos que alteram a rotina da criança, como problemas de saúde, financeiro, ou brigas em família. A criança que permanece sob estresse, ou preocupada, também permanece agitada, pois a preocupação leva o corpo a disponibilizar energia o para ação. Porém, como na maioria das vezes, não há nada que a criança possa fazer para mudar os acontecimentos que a deixam preocupada, ela permanece agitada. E, nesse contexto, do mesmo modo como foi explicado anteriormente, a criança pode fazer uso da comida para se acalmar e buscar alivio diante das suas preocupações e do incomodo que a agitação lhe proporciona.

Nesses casos, o que costuma chamar a atenção dos pais também pode ser a relação de dependência da criança com a comida, o que, do mesmo modo, pode fazer com que fiquem mais rígidos em relação as regras alimentares. Porem, até que os fatores que provocam estresse possam ser identificados para que deixem de invadir tanto a experiência da criança, é bem possível que ela continue fazendo uso dos alimentos em busca de alivio, sempre que surja oportunidade.

Fazer carinho na criança

O carinho, o contato físico através de abraços, beijos, ou um cafune, por exemplo é a maneira mais simples de mostrar para a criança que ela é amada e, portanto, de ajudá-la a se sentir bem por ser quem é. Os carinhos contribuem para ampliar a autoestima da criança e, além disso, a troca de afeto proporciona alegria e dá sentido para a vida tanto dos pais quanto dos filhos. Assim, quando os carinhos fazem parte da relação dos pais com seu filho(a), a sensação de se sentir amada, aceita e ter um sentido maior diante das tarefas do dia a dia fazem parte da experiência da criança, o que em relação a alimentação, a protege de buscar na comida o prazer que não encontra nas suas relações. Ou ainda, de expressar através da relação com o seu corpo a sensação de não se sentir aceitar do jeito que é.

Assim, por mais que a atenção de muitos pais nos dias de hoje esteja direcionada em ensinar a criança a se alimentar de forma saudável, se os fatores emocionais que levam a compulsão alimentar não forem cuidados, é bem possível que se estabeleça um ciclo vicioso nas famílias, no qual os pais tendem a controlar, proibir e restringir alimentos de forma cada vez mais radical e a criança tenta obedecer essas restrições, até que tenha oportunidade para comer o que deseja para buscar alivio diante da ansiedade, do estresse e do vazio, o que tende a tornar os pais ainda mais severos em relação a alimentação… nesse ciclo vicioso, existe o risco dessa dinâmica se cristalizar ao longo do desenvolvimento da criança. Por outro lado, se as necessidades emocionais da criança também forem cuidadas, a criança vai comer quando estiver com fome e também pedirá para consumir alimentos que lhe dão prazer, mas sem compulsão e, portanto, sem exageros, o que diminui a necessidade dos pais precisarem impor restrições severas e radicais para a alimentação da criança.