Cuidados com o filho adotivo

 

O vinculo que os pais constroem com um filho adotivo pode se tornar tão significativo quanto o vinculo que é construído com um filho biológico. Porém, como no caso da adoção, a criança chega na família com uma história de vida que não foi compartilhada com os pais, existem alguns cuidados específicos a esse processo que podem ajudar na construção do vínculo com a criança.

Quando a criança chega na família, é bem possível que ela já tenha vivido algumas experiências com seus pais biológicos, ou mesmo no abrigo no qual vivia antes da adoção. Nessas interações anteriores, a criança começou a desenvolver a sua maneira de se relacionar. A maneira de se relacionar pode ser expressa de forma sutil, como o tom de voz mais alto do que os pais costumam utilizar, ou uma forma mais firme de pegar os brinquedos ou objetos, por exemplo. E por mais que esses gestos possam chamar a atenção dos pais, é importante se manter tranquilo e ter em mente que essa maneira de se relacionar muda conforme as interações da criança se modificam e por isso, não devem ser entendidas como uma característica definitiva. Do contrário, quando os pais entendem que esses gestos indicam que o filho(a) é agressivo(a), por exemplo, é possível que esse olhar se torne presente nas interações que terão com  a criança e assim, essa transformação pode se tornar mais difícil. Nesses casos, como a maneira de se relacionar da criança esta impedida de se transformar, mesmo passando o tempo, é possível que a criança sinta que ela é muito diferente dos pais, o que promove uma distancia e dificulta a intimidade que é essencial para a construção de um vinculo de confiança entre pais e filhos.

Além de ter consciência de que a criança possivelmente terá uma maneira de se relacionar diferente para que seja possível responder aos seus gestos com tranquilidade; também é importante refletir sobre os sentimentos que a criança desperta. Alguns pais podem sentir pena ou ter a sensação de que estão “salvando” a criança de uma vida difícil. É importante identificar esses sentimentos ou crenças para que eles possam ser questionados e, assim, evitar que se relacione com a criança orientado pela expectativa de que ela sinta gratidão por ter sido adotada. Quando a crença de que a criança foi “salva” pelos pais se mantem presente na relação é possível que os pais, mesmo sem perceber, acabem colocando a criança em uma posição de devedora, o que pode provocar uma reação de raiva da criança; ou o oposto, a criança pode reprimir a sua espontaneidade e direcionar sua energia pela intenção de agradar os outros.

E ainda, outro cuidado importante é oferecer espaço para a criança perguntar e conversar sobre sua história de vida; sua família de origem e suas experiências anteriores à adoção. Esse espaço aparece na relação na medida em que a criança percebe a segurança e tranquilidade dos pais quando ela faz perguntas sobre a sua história. Com a tranquilidade e segurança que os pais expressam, a criança percebe que pode não só fazer perguntas, mas compartilhar seu sofrimento e seus anseios, o que torna sua experiência mais leve. Se ao contrário, as perguntas que a criança faz sobre a sua história de vida despertam ansiedade, insegurança ou angústia nos pais, o espaço na relação para esse diálogo, deixa de existir e a criança fica isolada, sem encontrar apoio para lidar com as emoções que a sua história de vida lhe despertam, o que, com o tempo, pode tornar seu sofrimento cada vez mais intenso.

Assim, quanto mais as experiências anteriores da criança forem reconhecidas e incluídas na relação com seus pais com tranquilidade e quanto mais os pais se apropriarem dos eu desejo de ter um filho e de construir uma família que foi atendido com a adoção, é bem provável que a relação assuma uma posição horizontal, na qual a criança não será vista como devedora, nem será exigido que expresse gratidão. Com isso, a chegada da criança à família pode ser vivida como um encontro entre os pais e seu filho(a),  a partir do qual a mãe, o pai e a criança se transformam e se beneficiam.

A função dos limites no desenvolvimento da criança e a importância da forma como são colocados

 

No dia a dia, os limites aparecem na relação dos pais com seus filhos desde cedo, conforme a criança começa a andar e o seu principal interesse passa a ser o de explorar o ambiente. Nessa fase, os pais precisam repetidas vezes impedir o movimento da criança com a intenção de protegê-la. Ou seja, no dia a dia, o limite costuma ser colocado pelos pais de forma natural e essas experiências são importantes, não só para manter a criança segura, mas também porque os limites exercem diferentes funções no seu desenvolvimento. Quando a criança ouve seus pais dizerem “não” fica muito claro para ela que a vontade dela é diferente da vontade dos seus pais. Por isso, os limites são uma forma de fazer com que a criança entre em contato com a diferença!

A ideia de que as outras pessoas podem sentir e querer coisas diferentes de mim é um recurso que é desenvolvido pela criança ao longo de todas as suas interações desde o seu nascimento, mas é reforçado pelos limites que são colocados pelos pais. A noção da diferença tem inúmeras funções no desenvolvimento, uma delas é de permitir que a criança se ajuste às necessidades dos outros, ou às regras de um ambiente, quando necessário. Além disso, quando a criança ouve um “não” dos seus pais, esse momento também se torna uma oportunidade para desenvolver a sua capacidade de buscar soluções criativas. Por exemplo, uma criança vai com seus pais visitar a casa de amigos da família e enquanto seus pais conversam, ela começa a mexer nos objetos de decoração da casa. Nesse momento, seus pais falam para ela parar de mexer nesses objetos. A partir do limite que é colocado, a criança pode reagir à frustração de forma automática chorando, por exemplo, ou pode buscar uma solução criativa e começar a se entreter com os brinquedos que sua mãe lhe oferecesse.

Esse exemplo ilustra também que a forma como os limites são colocados e como os pais reagem à frustração do seu filho(a) pode contribuir ou não para que o limite  seja vivido pela criança como um cuidado. E um dos cuidados relacionados à forma como os limites são colocados é tentar ajudar a criança a reagir de forma criativa diante do “não”! Uma mãe ou um pai que pede para o filho(a) parar de mexer nos objetos da casa do amigo, levanta para buscar os brinquedos que trouxe e começa a brincar até que seu filho(a) consiga se entreter sozinho, esta ajudando a criança a encontrar uma solução criativa!

Além de ajudar a criança a buscar soluções criativas, outro cuidado importante relacionado à forma como os limites são colocados é tomar cuidado para não reagir à frustração que a criança expressa de forma desproporcional! Quando a criança se sente frustrada, ela pode chorar, ou ser agressiva com os pais, que podem, de forma bastante compreensível, ficar irritados. A irritação é natural e mostra apenas que os pais são humanos. O problema acontece quando a irritação é tão intensa que os pais mudam a qualidade da relação com seu filho por um período de tempo prolongado.

Imagine que você discutiu com sua mãe por um motivo aparentemente sem importância e a partir dessa discussão fica um “clima” estranho e vocês não se falam direito ou não conseguem agir de forma espontânea por algumas semanas. Um adulto provavelmente vai ficar incomodado com essa situação, mas tem autonomia para lidar com esse incomodo. Ele pode se dedicar as suas outras relações, por exemplo. Com uma criança é diferente, se a qualidade da relação com seus pais muda dessa forma por tanto tempo, ela encontra poucas maneiras de sair desse incomodo.  Quando o mal estar na relação se prolonga, é possível que a criança se sinta excluída das relações familiares. Por isso, é importante ficar atento e desenvolver o hábito de refletir sobre a qualidade da relação com os filhos. É a nossa capacidade de reflexão que torna possível identificar quando existe um distanciamento prolongado provocado pela irritação e ressentimento e, a partir dai, agir de forma intencional para se reaproximar da criança e retomar a relação com a mesma qualidade de antes! Caso contrário, o limite deixa de ensinar para a criança sobre as diferenças e a criatividade e pode se tornar uma experiência de exclusão, que provoca muito sofrimento.

Assim, os limites são necessários e importantes para a criança, mas eles só vão ser vividos como um cuidado que ajuda no desenvolvimento da criatividade e da percepção das diferenças, se a criança encontrar apoio para lidar com o “não” de forma criativa e, principalmente, se a qualidade da relação for preservada apesar da irritação que esses momentos de confronto podem provocar!!

O que fazer quando a criança diz “eu te odeio”

 

 

Qualquer criança, em uma discussão mais acalorada, pode sentir raiva dos pais e acabar dizendo que os odeia. Em muitas situações, quando isso acontece, tanto a criança quanto os pais percebem que exageraram, eles se desculpam e a situação é esquecida. Porém, existem casos em que as discussões nas quais a criança chega a dizer para os pais que os odeia se tornam frequentes. Nessas situações, é comum que os pais sejam afetados de forma cada vez mais intensa. Alguns ficam muito magoados, enquanto outros podem ficar extremamente irritados. Se a emoção toma conta, é possível que os pais reajam de foram automática. Ou mostrando que ficaram muito ofendidos, “fechando a cara” para a criança durante o resto do dia, por exemplo. Ou ainda, respondendo de forma agressiva e dando início a um “bate boca”.

O problema dessas reações automáticas, desencadeadas por emoções intensas, é que não permitem que os pais possam compreender o sentido dessa fala da criança e, sem essa compreensão, não é possível ensiná-la a se expressar de uma forma diferente. Por isso, nesse texto, pensei em explicar algumas possíveis razões que podem levar a criança a dizer, com frequência, que odeia seus pais e, assim, tonar mais fácil a definição do que pode ser feito nessas situações.

Essa pode ser uma reação da criança quando ela sente que não é escutada

Todas as pessoas para se sentirem seguras numa relação têm a necessidade de poder se expressar e de serem escutadas. Com as crianças, essa necessidade não é diferente. No entanto, muitos pais acreditam que ouvir a necessidade da criança significa obrigatoriamente atendê-la e que isso pode tornar a criança mimada. Por isso, é comum que tomem muitas decisões, como decidir um novo curso que a criança irá fazer, ou mudá-la de escola, por exemplo, sem se preocupar em contar para a criança as mudanças que ela irá enfrentar. Mesmo que a decisão já esteja tomada, é importante compartilhar a decisão com a criança. Assim, ela encontra um sentido para o que vai enfrentar e, além disso, encontra também a abertura necessária para compartilhar as sensações que essa experiência pode despertar. Do contrário, sem diálogo, é possível que a criança não sinta que os seus sentimentos são incluídos nas relações familiares. Nesse contexto, a raiva que ela expressa quando diz que odeia os pais pode representar uma maneira de “obrigá-los” a identificarem o que ela esta sentindo, fazendo com que eles sintam a mesma raiva, tristeza e frustração que a criança já sente há algum tempo.

Dizer “eu te odeio” pode ser uma maneira de comunicar um sofrimento

De modo semelhante ao que acontece no exemplo anterior, quando a criança enfrenta uma situação que lhe provoca sofrimento, é possível que ela não consiga verbalizar o que sente e, nesses casos, provocar as mesmas sensações nos seus pais, dizendo que os odeia, pode ser a maneira de comunicar a sua experiência. Por exemplo, se a criança brigou com os amigos na escola e não tem a habilidade de refletir sobre como os acontecimentos lhe afetam, nem o hábito de buscar alguém para lhe orientar a como agir nos momentos em que se sente mal; a raiva e a tristeza que sente quando encontra com esses amigos dificilmente será superada. Assim, a criança permanece em constante contato com essas sensações e uma simples discussão em casa pode ser o suficiente para que ela fique muito nervosa e reaja de forma agressiva dizendo que odeia seus pais. Desse modo, os pais são afetados pelas mesmas sensações que a criança está vivenciando há tempos e, se puderem refletir e perguntar para o seu filho sobre os acontecimentos que ele vem enfrentando, é possível que consigam transformar esse episódio de conflito em uma experiência na qual o sofrimento da criança encontrou o apoio necessário para ser comunicado.

Pode ser uma maneira de se relacionar que se estabeleceu com a criança

Existem situações também em que a agressividade se torna uma maneira que a criança assimila de se relacionar. Quando a postura de autoritarismo, ou as falas em um tom agressivo fazem parte da relação com a criança de forma constante, é possível que ela assuma uma posição de submissão na relação com os pais. E, assim, quase como um movimento de compensação em situações inesperadas, é possível que ela se comporte de forma oposta, assumindo uma postura agressiva e autoritária não só na relação com os pais, como com os amigos também.

Por isso, quando a criança diz frases nas quais ataca de forma intensa seus pais, como quando diz que os odeia e esse comportamento não é parte de uma discussão isolada, mas de um conflito recorrente na família, é preciso ficar atento. Ou para a maneira como se relaciona com a criança, ou para ajudar a criança a “dar voz”  para uma experiência ou sofrimento que possivelmente ela não consegue comunicar de outra forma!