Como cuidar da alimentação da criança sem radicalismo

 

 

Com o aumento dos índices de obesidade na infância e com as pesquisas que permitiram identificar as complicações que o excesso de peso pode provocar na saúde, surgiu a necessidade de pensar em prevenir as doenças e promover a saúde das crianças. Para isso, nos últimos anos, a ideia de estimular uma alimentação saudável na infância foi muito divulgada. No entanto, a divulgação dessa ideia, na maioria das vezes, se limitou aos aspectos nutricionais dos alimentos e os fatores emocionais, que dão suporte para uma relação saudável com a comida, nem sempre foram considerados. 

É importante que esses fatores sejam identificados e cuidados, porque quando a criança enfrenta alguma dificuldade emocional é possível que ela faça uso dos alimentos como forma de se acalmar. Nesses casos, os pais, muitas vezes, reagem ao comportamento da criança, proibindo certos alimentos ou estabelecendo regras muito rígidas para a sua alimentação. No entanto, até que as questões emocionais sejam cuidadas; as restrições mais severas na dieta da criança dificilmente terão um efeito duradouro. Por outro lado, quando as questões emocionais são cuidadas, os pais podem oferecer referências sobre uma alimentação saudável, mas de forma mais tranquila, sem a necessidade de proibições ou restrições severas, já que a criança não tende a cometer exageros quando a comida deixa de exercer a função de acalmá-la.

Pensando nisso, nesse texto vou apresentar alguns fatores emocionais que precisam ser cuidados para que a criança possa ter uma relação equilibrada com os alimentos e, assim, a atenção que os pais dedicam a alimentação do seu filho(a) também pode ser melhor distribuída e equilibrada entre as outras necessidades da criança. Com isso, os pais podem orientar a criança a ter uma alimentação saudável no dia a dia sem radicalismos, nem exageros:

A capacidade da criança identificar e comunicar o que sente.

Ajudar seu(a) filho(a) a identificar e comunicar o que sente é um cuidado que pode beneficiá-lo(a) de diferentes maneiras no seu desenvolvimento. Em relação a alimentação, esse cuidado é fundamental porque as emoções despertadas no corpo da criança, assim como no adulto, são vividas em um primeiro momento como uma agitação, uma energia que é despertada na interação com as pessoas. Conforme a criança aprende que essa energia tem um nome, ela pode agir e retomar a sensação de tranquilidade e bem estar (por exemplo, quando a criança percebe que seu amigo disse algo que a deixou irritada, ela pode falar que não gostou do que ele disse. Se o amigo se desculpa, a raiva passa e a criança se tranquiliza). Quando a criança não aprende a identificar suas emoções, a energia associada a raiva, a tristeza, ou ao medo fica contida no seu corpo, provocando agitação e mal estar. Nesse contexto, algumas crianças expressam essa agitação (que é o que chamamos de ansiedade) diretamente e não conseguem “ficar paradas”; enquanto outras podem buscar na comida uma forma de se acalmar ou de anestesiar a sensação de mal estar que vivenciam.

Quando o desenvolvimento da capacidade de perceber suas emoções esta paralisado, a compulsão por alimentos que a criança desenvolve como forma de se acalmar, se torna muitas vezes o comportamento mais evidente e que chama a atenção dos pais. Se isso acontece, é comum que a sua reação seja a de proibir o consumo de doces, ou dos lanches preferidos da criança como forma de ajuda-la a se controlar, mas se o fundo emocional, ou seja, a dificuldade de comunicar o que sente, não for cuidada, é bem provável que a ansiedade seja uma experiência constante para a criança e, na primeira oportunidade que ela tiver contato com os alimentos que gosta, ira consumi-los de forma exagerada, em busca de alívio para a sua agitação.

Identificar maneiras de proteger a criança do estresse prolongado

O estresse para as crianças, assim como para os adultos pode ter uma função positiva. Quando precisam fazer uma prova, ou uma apresentação na escola, por exemplo, as crianças podem ficar nervosas e essa sensação é o que as motiva a estudar e se concentrar no momento da prova. Ou seja, o estresse quando é despertado por um curto período de tempo, tem uma função positiva, de preparar a criança para usar as suas habilidades diante de um desafio. Quando o desafio termina, o estresse diminui.

Porém, quando a criança vive sob o efeito constante do estresse, esse efeito positivo desaparece e a criança passa a viver em alerta, preocupada e nervosa, o que também a deixa em um estado de agitação. Os fatores que podem deixar a criança estressada e agitada variam muito e podem ser desde uma maneira agressiva dos pais de se relacionar, até repetidos acontecimentos que alteram a rotina da criança, como problemas de saúde, financeiro, ou brigas em família. A criança que permanece sob estresse, ou preocupada, também permanece agitada, pois a preocupação leva o corpo a disponibilizar energia o para ação. Porém, como na maioria das vezes, não há nada que a criança possa fazer para mudar os acontecimentos que a deixam preocupada, ela permanece agitada. E, nesse contexto, do mesmo modo como foi explicado anteriormente, a criança pode fazer uso da comida para se acalmar e buscar alivio diante das suas preocupações e do incomodo que a agitação lhe proporciona.

Nesses casos, o que costuma chamar a atenção dos pais também pode ser a relação de dependência da criança com a comida, o que, do mesmo modo, pode fazer com que fiquem mais rígidos em relação as regras alimentares. Porem, até que os fatores que provocam estresse possam ser identificados para que deixem de invadir tanto a experiência da criança, é bem possível que ela continue fazendo uso dos alimentos em busca de alivio, sempre que surja oportunidade.

Fazer carinho na criança

O carinho, o contato físico através de abraços, beijos, ou um cafune, por exemplo é a maneira mais simples de mostrar para a criança que ela é amada e, portanto, de ajudá-la a se sentir bem por ser quem é. Os carinhos contribuem para ampliar a autoestima da criança e, além disso, a troca de afeto proporciona alegria e dá sentido para a vida tanto dos pais quanto dos filhos. Assim, quando os carinhos fazem parte da relação dos pais com seu filho(a), a sensação de se sentir amada, aceita e ter um sentido maior diante das tarefas do dia a dia fazem parte da experiência da criança, o que em relação a alimentação, a protege de buscar na comida o prazer que não encontra nas suas relações. Ou ainda, de expressar através da relação com o seu corpo a sensação de não se sentir aceitar do jeito que é.

Assim, por mais que a atenção de muitos pais nos dias de hoje esteja direcionada em ensinar a criança a se alimentar de forma saudável, se os fatores emocionais que levam a compulsão alimentar não forem cuidados, é bem possível que se estabeleça um ciclo vicioso nas famílias, no qual os pais tendem a controlar, proibir e restringir alimentos de forma cada vez mais radical e a criança tenta obedecer essas restrições, até que tenha oportunidade para comer o que deseja para buscar alivio diante da ansiedade, do estresse e do vazio, o que tende a tornar os pais ainda mais severos em relação a alimentação… nesse ciclo vicioso, existe o risco dessa dinâmica se cristalizar ao longo do desenvolvimento da criança. Por outro lado, se as necessidades emocionais da criança também forem cuidadas, a criança vai comer quando estiver com fome e também pedirá para consumir alimentos que lhe dão prazer, mas sem compulsão e, portanto, sem exageros, o que diminui a necessidade dos pais precisarem impor restrições severas e radicais para a alimentação da criança.