Pensando na função dos castigos na educação da criança

 

Muitos pais recorrem a algum tipo de castigo com a idéia de que a punição pode fazer com que a criança deixe de se comportar de maneira indesejada e passe a obedecer o que lhe é imposto. Os castigos usados variam, os pais podem tirar um brinquedo ou proibir a criança de participar de uma atividade que goste, ou ainda, colocá-la no quarto ou em um canto da casa para pensar no que fizeram. Mas será que os castigos funcionam?
Alguns pais podem argumentar que sim, que os castigos funcionam para a criança entender que suas atitudes trazem consequências e também para que aprendam a respeitar a sua autoridade.  No entanto, a crença de que as crianças precisam reconhecer e respeitar a autoridade dos pais muitas vezes cria uma distância na relação e dificulta a possibilidade da criança expressar seus sentimentos e pensamentos para os seus pais. Assim, impor a autoridade aos filhos por meio dos castigos pode comprometer o diálogo que é o instrumento mais valioso de uma relação e a principal via para educar uma criança.
Além disso, nem sempre os castigos são a melhor alternativa para que a criança possa compreender as consequências das suas atitudes. Se a criança responde de maneira agressiva para a sua mãe, por exemplo, e a mãe fica triste e expressa o seu descontentamento, a reação da mãe faz com que a criança se sinta culpada e a partir do contato com esse sentimento, a criança pode assumir a responsabilidade pelo que fez pedindo desculpas. Assim, a própria reação da mãe e o incômodo contato com o sentimento de culpa já proporcionam para a criança por meio da experiência, a compreensão sobre a consequência da sua atitude. Se, nesse exemplo, a mãe além de expressar seu descontentamento também proíbe a criança de ir na casa de um amigo com a intenção de castigá-la, é muito provável que a criança fique confusa sem entender a dimensão do que fez porque a punição não tem nenhuma relação com a sua atitude. Além disso, a criança pode ficar com receio de fazer algo errado novamente porque o castigo passa a mensagem de que os seus erros não podem ser reparados com um pedido de desculpas ou com uma conversa e trazem consequências imprevisíveis e desproporcionais.

É preciso ressaltar ainda, que o castigo por si só não é nem positivo nem negativo para o desenvolvimento da criança, o importante é estar atento ao uso que se faz desse recurso. Eu citei nesse texto duas das principais intenções que percebo que estão por traz da decisão de alguns pais, quando optam por aplicar um castigo aos seus filhos: a intenção de impor a autoridade e de ajudar a criança a compreender a consequência das suas atitudes.  Nesses casos, é bem provável que essa experiência provoque um sofrimento sem sentido para a criança. No entanto, o castigo pode ser também um recurso que ajuda a iniciar um diálogo com a criança. Por exemplo, nos momentos em que a criança está muito nervosa e agressiva, colocá-la no seu quarto até que ela esgote a sua raiva e seja possível começar a conversar para compreender o que aconteceu e ajudá-la a pensar em uma maneira de lidar com esse sentimento é uma técnica que pode estar a serviço do desenvolvimento da criança. Ou ainda, quando a criança insiste em um comportamento, impor um castigo que esteja relacionado com o que ela faz pode funcionar; como por exemplo, quando a criança se recusa a comer sua comida, proibi-la de comer doces e outras guloseimas entre as refeições podem ajuda-la a adotar uma alimentação mais saudável. Por isso, antes de colocar seu filho de castigo tente fazer essa discriminação. Qual a intenção do castigo? Se for de impor a sua autoridade e enfatizar o erro da criança, talvez seja melhor abrir mão desse recurso, pois expressar a forma como a atitude da criança te afeta e conversar com espontaneidade, já é suficiente!!
  1. Veronica Carvalho Em 11/07/2013

    Carla, muito bom seu texto. Veja no blog Ninguém Cresce Sozinho, um post relacionado a este tema. http://ninguemcrescesozinho.com/2013/04/16/castigo-pode-nao-ser-um-tapinha-mas-doi-e-nao-constroi/#comments


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  2. Carla Poppa Em 11/07/2013

    Oi Veronica! Que bom que você gostou do texto!! Adorei seu blog, muito bacana o trabalho de vocês!!


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  3. Aline de Paula Em 10/08/2013

    Carla, adorei o texto. Também concordo que o castigo não deve ser aplicado por qualquer motivo. Venho caindo nesta armadilha direto. Minha filha tem 2 anos e meu marido, que não lê nada sobre educação, põe minha filha de castigo sentada, por qualquer motivo que o desagrade. Eu não concordo com ele mas também não posso tirar a autoridade dele.

    É difícil.


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  4. carla poppa Em 10/08/2013

    Oi Aline!
    Fico feliz que tenha gostado do texto! Eu entendo o que você diz, pode ser difícil mesmo quando os pais têm estilos de educar muito diferentes… e também acho complicado falar alguma coisa na hora que ele está colocando a sua filha de castigo, mas tente conversar com ele em um momento em que os dois estiverem calmos. Pergunte e o ajude a pensar qual intenção ele tem quando coloca a filha de vocês de castigo e questione se não existem outras maneiras de lidar com o comportamento dela.
    Essas conversas podem ajudar a desenvolver uma sintonia na forma que vocês tem de educar, mas para que sejam produtivas é importante que aconteçam em um momento em que esteja tudo bem!!
    Um abraço,
    Carla


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